Quantos dias sozinho em Tormes são precisos para começar a deprimir? Perguntava eu nas semanas antes da minha partida. Ainda não sei. Passados doze dias, a depressão não chegou. Chegaram as saudades. Entraram como uma chuva torrencial durante o primeiro momento em que me permiti ver um filme. Aqui permanecem junto do meu peito. Não há telefonema, nem mesmo com vídeo, que substitua o toque — pele com pele. Ou pele com pelo, no caso dos gatos.
Antes de chegar, configurei o telemóvel para só ter acesso ao essencial: Música, Dinheiro, Mensagens e Mapa (estão assim por esta ordem no ecrã). Ficou de fora o Youtube e as suas shorts nas quais andava viciado há uns meses. Permito-me estar com a inquietude, sem recorrer aos vídeos para me entreter.
Depois da privação inicial, essa inquietude começou a desenhar novos lugares no meu dia-a-dia. Dou passeios pelo meio das vinhas de Tormes. Telefono à família e aos amigos (Estás pronto para a reforma!, disse-me o Leonardo Varella-cid). Leio autores portugueses, pois falta-me estrada na literatura do nosso país. E claro, escrevo. Ao todo já vou em 13.636 palavras.
Os momentos mais difíceis são as refeições. É que comer para mim é sinónimo de convívio. Felizmente herdei da minha mãe um certo à vontade para ir conhecendo pessoas. Descobri o Fernando, dono do restaurante Pena Curva, que nunca me deixa muito tempo sozinho à mesa. Já me juntei a almoçar com a equipa da Fundação. E fui almoçar no Domingo com a Graça e o Maurício que tiveram a gentileza de me receber na sua casa. Saí de lá com umas batatas assadas em forno de lenha que agora acompanham todas as refeições feitas por mim.
Ainda assim, faço muitas refeições sozinho. Em alternativa a agarrar-me ao telefone, tenho puxado do caderno Emílio Braga e escrito pensamentos. Dei por mim a escrever uma lista intitulada “Coisas em que Acredito” que já vai com dez elementos. Sou eu a querer conhecer-me. E como também quero que me conheças, deixo-te uma das coisas em que acredito: confiar à partida, é mais poderoso do que desconfiar. É, também, por isso que me escrevo sem saber quem me lê.

