A filha a ensinar o pai

Por vezes é difícil compreender o que vai na cabeça dos meus filhos. Os seus mundos internos são cada vez mais vastos e complexos. Os convites para passear nos seus territórios tornaram-se escassos. Já não conheço tão bem as zonas à sombra, nem o cheiro das flores que nascem no meio das ervas daninhas. Acho natural que assim seja e dou por mim orgulhoso com os seus processos de individuação. Ainda assim, quando tenho a sorte de vislumbrar um pouco da paisagem sinto-me privilegiado e acarinho a preciosidade desse momento.

Recentemente tive um desses vislumbres. A minha filha convidou-me para ler um texto que ela tinha escrito para a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento. Eu estava num intervalo entre reuniões de teletrabalho e fui até ao computador dela. Sentei-me inconsciente do que me esperava. Achava que ia ver mais um dos inúmeros trabalhos de casa que diariamente os miúdos têm para fazer. Achava que ia ter de fazer um esforço para dizer que sim, que estava muito giro, tentando disfarçar a minha mente ocupada pelo stress da reunião de onde tinha saído momentos antes. 

À medida que comecei a ler, percebi que não era um texto normal. As suas palavras eram uma janela para o que ela estava a sentir por causa do confinamento. Concentrei-me no que me estava a ser comunicado e percebi que aquilo não era só o que ela sentia, era também o que eu sentia. Terminei a leitura comovido. Em poucas palavras, a minha filha tinha descrito a sensação ténue e persistente que tanto tem permeado a minha vida. A sensação de que a vida está mais pequena, mais parada, menos interessante. A sensação de falta de vida. As suas palavras encerravam a sabedoria dos adolescentes: a importância de continuar a arriscar, sem nos deixarmos anestesiar.

Desde esse dia tenho tentado recordar-me das suas palavras. A aprendiz a ensinar o mestre. Depois de uma boa conversa decidimos juntos publicar o artigo no blog. Há uns tempos eu refletia preocupado sobre como poderia continuar a partilhar a minha experiência de pai de adolescentes sem invadir a sua privacidade. Parece que estou a descobrir. Não é sozinho, é junto com eles.

Aqui tens o texto que ela escreveu, editado por nós os dois para a publicação no blog.

A quarentena

Durante a quarentena nós deixamos de saber se gostamos realmente das coisas, porque apesar de pensarmos nelas e de as experimentarmos, a sensação que temos não é verdadeira.

O que quero dizer é que deixamos de poder fazer coisas e de arriscar. Começamos a ter de fazer planos e a traçar limites. Ficamos loucos, porque apesar de ainda estarmos com os nossos amigos, já não é o mesmo. As pessoas começam a concentrar-se mais no sim e no não, no certo e no errado, no aprender muito e desfrutar pouco. A concentrar-se no trabalho e deixar o resto morrer.

Apesar de ser importante aprender, não é só na escola que aprendemos. Quando estamos juntos e a brincar aprendemos a conviver, a estar com o outro, a comunicar com as pessoas. Aprendemos a viver. Para conseguirmos ter um bom futuro, não podemos simplesmente saber a matéria, temos de saber estar com outras pessoas, aprender a tomar decisões e a arriscar. Não é isso que aprendemos nas aulas. Nas aulas nós aprendemos a escrever e a ler. Ensinam-nos a fazer contas. E estudamos o passado. Aprendemos matérias e também aprendemos a cumprir ordens e pedidos. 

Mas é com os amigos que nós aprendemos que chorar é tão normal como rir, que se nos chatearmos uns com os outros a nossa amizade não tem de acabar. É fora das aulas que aprendemos que se arriscarmos um pouco, a nossa vida fica mais interessante. Quando surge a oportunidade de fazer algo, em vez de ficarmos parados com medo e vergonha, podemos arriscar e assim a nossa vida vai ficar mais interessante.


Aprendi que não há receitas para a arte de ser Pai, mas acredito que a partilha da minha experiência pode ajudar outros pais a lidarem com os sentimentos de culpa, exaustão e raiva que facilmente se inflitram na vida familiar. Por isso escrevi o livro Tornar-me Pai.

3 opiniões sobre “A filha a ensinar o pai

  1. Que coisa linda Rodrigo, e obrigado Aprendiz. Obrigado por pelas palavras e sensações. Obrigado pela verdade e descoberta de emoção. É simplesmente maravilhoso usufruir deste privilégio tremendo de ver o mundo pelos vossos olhos e vivenciar essa descoberta autentica que nos faz crescer e ao mesmo tempo tão bem! Obrigado. E obrigado outra vez.

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  2. Assunto complexo. Precisava de saber a idade da jovem e a escolaridade. Em que ano anda?. A partir de;
    “É fora das aulas que aprendemos que se arriscarmos um pouco, a nossa vida fica mais interessante. Quando surge a oportunidade de fazer algo, em vez de ficarmos parados com medo e vergonha, podemos arriscar e assim a nossa vida vai ficar mais interessante”; pode o pai começar a interligar-se com o que pensa e gostava de fazer a filha e interligar-se mais dando-lhe muito mais ocasiões para conversar e até fazerem coisas, mais do gosto da filha, mas sempre em casa ou cumprindo os normativos do confinamento. Por outro lado procurar que a filha se interligue com os afazeres domésticos dos mais, apercebendo-se dessas dificuldades e também desse importante contributo por parte dos filhos. Enfim, um mundo inovador a desenvolver. PARABÉNS pela partilha desse assunto.

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